Lígia Feliciano e a entrevista do medo

Quem escutou a entrevista da vice-governadora Lígia Feliciano no programa Correio Debate, nesta segunda, 16, percebeu o medo que Lígia tem do governador Ricardo Coutinho. Lígia sequer confirmou que é pré-candidata e disse que ainda estava escutando o povo.

Mas que povo, doutora? Já estamos quase em maio e as coligações em plena formação.

Dominada pelo medo, Lígia Feliciano também não confirmou o acordo feito com Ricardo Coutinho, em 2014, condicionando a candidatura de vice-governadora à saída de Ricardo para disputar o Senado.

Mesmo sendo massacrada na imprensa pelo secretário de Comunicação Luis Tôrres, Lígia não deu nenhuma resposta firme às perguntas dos entrevistadores e preferiu ficar em cima do muro.

Ficou nítido que Lígia não estava falando com o coração e a todo tempo escondia seu juízo de valor sobre o momento político, as chantagens e as negociatas que Ricardo Coutinho propunha para que ela também renunciasse o cargo e um novo governador fosse eleito pela Assembleia.

Resumindo, Lígia não é nem contra, nem a favor, muito pelo contrário.

E vice-versa.

TOTALITARISMO: Ricardo só deixaria o governo para disputar o Senado se continuasse controlando a gestão

O apego do governador Ricardo Coutinho ao poder é tão grande que ele já fala absurdos sem nem perceber. Em entrevista à TV Master, RC deixou bem claro que só sai do governo para  se Lígia Feliciano aceitar virar sua marionete e não se intrometer no processo eleitoral:

“Eu disse que me dava o direito de poder achar que deveria coordenar, controlar, eleitoral e administrativamente, esse processo até o dia 31 de dezembro. Eu disse que eu só sairia se eu tivesse esse controle. Como eu não sou de ficar naquele coisa de controla ou não controla, porque tem essa história, e eu não dependo de cargo para viver, eu prefiro estar aqui ao lado dos meus companheiros todos”, resumiu Coutinho.

No privado, duas semanas antes, e no público, em entrevista ontem, Ricardo reforçou o que já havia sinalizado de uma forma mais comedida.

Só sai do cargo para disputar 2018 com a garantia de que continuará comandando tudo. Ou controlando, no dizer expresso dele. Mesmo fora das funções.

Polítika com Heron Cid

O blefe em Lígia: Ricardo Coutinho também prometeu a Avenzoar que não seria candidato a prefeito de JP

O blefe está para a política como a bola para o futebol. E de blefe Ricardo Coutinho entende muito bem. Foi blefando que ele declarou internamente apoio à candidatura de Avenzoar Arruda para prefeito de João Pessoa, em 2004. O acordo (assinado) foi uma compensação por Avenzoar abandonar seu mandato de deputado federal para disputar o governo (2002) pelo PT sabendo que perderia a eleição.

Mas Ricardo tratou de arrumar outro partido e deixou Avenzoar a ver navios.

E agora ele blefa de novo com Lígia Feliciano. Mas o objetivo é outro; fazer a vice-governadora abandonar a pré-campanha, uma vez que o crescimento da pré-candidatura de Lígia ofusca nomes do PSB e representa uma ameaça ao projeto pessoal de Ricardo, que ele tenta vender como projeto político. Mas não é.

Em abril, Ricardo quer uma Lígia fragilizada, dependente e convencida de não ter mais chances eleitorais.

Aí ele oferece um calaboca, sai do governo e disputa o Senado.

Foi blefe.

RC deve oferecer 1ª Suplência na chapa de senador a Damião Feliciano e abrir caminho para Veneziano ou João

Que Lígia Feliciano não é a favorita do governador Ricardo Coutinho, todo mundo já sabe, pois se assim fosse, estaria com ela debaixo do braço percorrendo a Paraíba para aumentar a popularidade da vice-governadora.

Mas para tentar um acordo que o faça ser candidato ao Senado sem perder o controle da máquina, Ricardo deve oferecer a 1ª suplência ao deputado Damião Feliciano, marido de Lígia. O que é um bom negócio, haja vista que RC pode voltar a ser prefeito de João Pessoa, em 2020, ou tentar o governo novamente em 2024.

Para quem nunca teve planos maiores, virar senador da República não é pouca coisa. Até porque Lígia Feliciano sabe que enfrentar Romero ou Cartaxo (ou os dois juntos) numa campanha de apenas 45 dias não vai ser nada fácil. Então, melhor um passarinho na gaiola do que dois voando.

O governador RC poderia bancar ainda a eleição de um dos filhos de Damião para a Câmara Federal.

Com a garantia de Lígia na base, RC fica mais tranquilo para deixar o governo e testar as candidaturas de Veneziano e João Azevedo.

A informação foi repassada ao Polítika por uma fonte ligado ao governo.